O "X" tem um rei, e ele é autocrata
- Eduardo Sanches
- 11 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
No atual cenário global, as tecnologias digitais estão profundamente entrelaçadas no cotidiano da maioria das pessoas. Convivemos diariamente com tecnologias que são essenciais para a imersão e participação em áreas da vida globalizada, seja para fins de trabalho, locomoção, lazer, entre outros. Este é um processo global em que as intenções, ações, reflexos e sentimentos são traduzidos em dados operacionalizáveis para gerar novas ações preditivas a partir de coleta extensiva de informações (Lemos 2021).
A dataficação da vida é hegemônica quando se trata dos processos comunicacionais (Lemos, 2021). Dessa forma, as redes sociais surgem como um dos elementos centrais nesta discussão. Movidas a sistemas algorítmicos altamente performativos, (Bucher 2018; Danaher et al. 2017; Dourish 2016; Finn 2017; Gillespie 2014; Striphas 2015 apud Lemos 2021) o uso dinâmico de dados induzem ações e prevêem eventos (Barassi 2020; Zuboff 2019 apud. Lemos 2021). Os algoritmos se tornam, na contemporaneidade, mecanismos que refletem as escolhas humanas e institucionais que os fundamentam (Gillespie 2014).
O Twitter (X) se destaca ao analisarmos como os mecanismos de performatividade algorítmica resultam em enormes consequências no espectro político e no domínio do espaço de debate público. Desde que a plataforma foi adquirida pelo bilionário Elon Musk, as mudanças foram além do nome; a política de privacidade foi alterada sem qualquer tipo de divulgação. Em um episódio recente, essas medidas arbitrárias foram questionadas por Alexandre de Moraes, como você pode conferir no post em nosso blog.
Como proprietário do X, Musk exerce um controle direto sobre o funcionamento do complexo algorítmico da plataforma, moldando-o para favorecer publicações alinhadas aos seus próprios vieses políticos e interesses pessoais. Esse poder se estende a ações como a manipulação da visibilidade de conteúdos, o que, em casos extremos, pode ter um impacto significativo, como demonstrado nas últimas eleições americanas, em que Musk utilizou sua rede social para amplificar conteúdos favoráveis a Donald Trump, logo após reativar a página do atual presidente dos EUA. Trump foi banido por tweets de risco de incitação à violência após a vitória de Joe Biden em 2020, motivando a invasão ao Capitólio, que resultou em 5 mortes.

Neste contexto, os tweets de Musk, frequentemente difamatórios e sem evidências, permanecem sem punição devido à sua posição de poder na plataforma, onde ele tem a autoridade para determinar as regras e limitações. De acordo com a CBS News, cerca de 55% das publicações sobre segurança eleitoral realizadas por Musk, eram falsas ou imprecisas. Mesmo com a checagem de fatos, esses posts ultrapassavam a marca de 45 milhões de visualizações. Apesar das polêmicas, o dono do X será líder do Departamento de Eficiência Governamental durante o mandato de Trump.
Vale ressaltar que Musk possui mais de 200 milhões de seguidores e, conforme reportado pelo portal Platformer, alterou o algoritmo da rede em 2023 para promover seus tweets a todos os usuários do Twitter. Como resultado, a tendência é que os membros da plataforma sejam cada vez mais expostos aos ideais e opiniões de Musk.
Isso contribui para o crescimento da adesão a essas visões, à medida que o controle algorítmico, nas mãos de quem detém o poder da plataforma, favorece a recomendação de publicações que, embora não necessariamente verdadeiras, acabam dominando o espaço do debate público.
A dataficação favorece uma forma de vigilância policial e política (Garfinkel, 2000 apud. Lemos, 2021) que transforma a coleta de dados pessoais em algo rotineiro (Couldry e Yu 2018 apud Lemos 2021). Assim, em um cenário que os serviços de informação algorítmica são altamente personalizados, nossas preferências por aqueles que pensam da mesma forma nos levam para dentro de filtros bolhas, em que a diversidade do conhecimento e o diálogo político podem ser minados (Sustein 2001; Parisier; 2011).
Desse modo, esse cenário exige discussões para maior transparência quanto o funcionamento e diretrizes desses mecanismos tão poderosos no atual estágio do mundo e da cultura digital, onde todos inseridos nesse espaço estão vulneráveis à opiniões que mais aparecem na tela do aparelho, criando a falsa ilusão de que o usuário tem o controle sobre o que acredita, quando, na verdade, o proprietário da plataforma o controla por meio dos algoritmos.



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