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A arquitetura do controle: Big Techs e o novo poder global

  • Foto do escritor: Lara Chaves
    Lara Chaves
  • 22 de jan. de 2025
  • 3 min de leitura

O discurso de Donald Trump em seu retorno à Casa Branca marcou a consolidação das big techs como protagonistas hegemônicas na política global. A participação de CEOs como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos na cerimônia de posse presidencial ilustrou o crescente poder estratégico dessas corporações, que deixaram de ser apenas intermediárias tecnológicas para se tornarem influentes arquitetas de agendas globais. Esse movimento, definido pelo economista Bruno Carazza como a era da “tecnoplutocracia”¹, reforça a influência das empresas frequentemente mencionadas como GAFAM (Google, Apple, Meta [antiga Facebook], Amazon e Microsoft) no cenário político. Carazza alerta que essa centralização de poder pode comprometer os pilares democráticos, transformando a política em um espaço cada vez mais dominado por interesses corporativos, em detrimento do bem comum.


Shawn Thew/Pool via Reuters
Shawn Thew/Pool via Reuters

Com vastos bancos de dados e algoritmos, essas empresas transcendem fronteiras e regulamentações, moldando opiniões, direcionando narrativas e controlando o fluxo de informações. Esse poder é viabilizado pela vigilância digital, que coleta e analisa dados para criar algoritmos capazes de intensificar bolhas informacionais, reforçando visões polarizadas e enfraquecendo o debate democrático. O contraste entre os discursos de posse de Donald Trump em 2017 e 2025 reflete essa transformação: enquanto o primeiro adotava um tom nacionalista e anti-institucional, o segundo, de acordo com o G1, trouxe uma retórica mais polarizadora, amplificada pelo uso estratégico das plataformas digitaisA CNN, por sua vez, ressaltou trechos emblemáticos que evidenciam essa mudança de abordagem.




Nesse sentido, as estruturas de poder baseadas na vigilância não apenas monitoram, mas moldam comportamentos (Foucault, 1987), consolidando narrativas que enfraquecem o pluralismo e aprofundam divisões sociais. Mas houve um elemento partilhado entre os dois discursos: a auto-centralização dos EUA em relação ao restante do planeta. O novo representante do país se projeta como a torre central deste grande panóptico - o mundo. Assim, ele propõe que atravessará toda a sociedade com mecanismos disciplinares através de um poder visível mas inverificável, mediante processos de coerção política penetrados no senso comum. 


As Big Techs, integradas ao aparato do Estado moderno, expandem as práticas de vigilância ao utilizarem tecnologias computacionais que automatizam e tornam impessoal a coleta e o controle de informações. A reunião de dados, que historicamente incluiu informações demográficas, fiscais e sociais para exercer controle e organizar populações (Fucks, 2011), é agora intensificada pelo uso de algoritmos avançados. Esse desenvolvimento tecnológico permite tanto o controle técnico e a supervisão de trabalhadores quanto a ampliação do monitoramento para abranger comportamentos sociais em escala global, redefinindo as formas de poder e organização no contexto atual.


O Brasil exemplifica de forma clara os impactos desse modelo nas democracias emergentes, onde a vulnerabilidade à desinformação se torna especialmente alarmante. De acordo com relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os brasileiros apresentam a menor capacidade entre os países analisados para distinguir entre notícias reais e falsas, refletindo um ambiente altamente suscetível à manipulação informacional. Essa fragilidade se manifestou na eleição brasileira de 2018, quando o WhatsApp foi amplamente utilizado para disseminar conteúdos polarizadores e desinformativos, contribuindo para a radicalização do debate público.


Infográfico elaborado pela snaq.co com os dados obtidos no relatório da OCDE.
Infográfico elaborado pela snaq.co com os dados obtidos no relatório da OCDE.

Mais recentemente, a polêmica envolvendo o vídeo do deputado Nikolas Ferreira sobre o Pix, que alcançou mais de 310 milhões de visualizações no Instagram — um número que supera a base de usuários brasileiros na plataforma —, reforça como as práticas algorítmicas das big techs alimentam narrativas polarizadoras. Internautas e lideranças políticas questionaram a veracidade dos dados, sugerindo possíveis manipulações algorítmicas que amplificam o alcance de determinados conteúdos e intensificam divisões sociais, ameaçando, assim, os pilares democráticos.


Diante desse cenário, torna-se urgente o debate sobre a regulação das big techs e a implementação de mecanismos que protejam o espaço democrático. A concentração de poder informacional e econômico nas mãos de poucas empresas não apenas redefine as dinâmicas políticas globais, mas também fragiliza as bases do pluralismo e da transparência. Somente com uma governança global robusta, aliada à educação digital das populações, será possível enfrentar os desafios impostos por essa nova era de tecnoplutocracia e salvaguardar os valores democráticos frente ao crescente domínio das corporações tecnológicas.


¹ Define um sistema de governo em que uma elite rica exerce poder, usando conhecimento técnico para influenciar decisões políticas e sociais, muitas vezes ampliando desigualdades e limitando a democracia.


 
 
 

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