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Vaza Jato: A Comunicação Distribuída na Construção da Democracia

  • Rede de Poder
  • 5 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura

Ilustração: João Brizzi e Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Thiago Gomes/AGIF via AP
Ilustração: João Brizzi e Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Thiago Gomes/AGIF via AP

por Júlia Naomi e Luanda Costa



No dia 9 de Junho de 2019, o Intercept Brasil deu início à Vaza Jato, uma série de reportagens que denunciou a parcialidade do juiz Sergio Moro na determinação de resultados da da Operação Lava Jato, maior investigação sobre corrupção já feita no Brasil.  Nela, a equipe do jornal trouxe a público conversas privadas que demonstram a intervenção proibida do juiz no trabalho do Ministério Público, com a anuência do procurador Dallagnol. 


A articulação entre parte julgadora e acusatória da investigação viola o princípio da imparcialidade previsto na Constituição e no Código de Ética da Magistratura, e só veio a público devido ao envio de um lote de arquivos secretos por uma fonte anônima. Para (Antoun, Malini, 2013), o anonimato é partícula importante da comunicação, especialmente quando enfrenta o poder do Estado e das corporações, pois torna o poder da comunicação especialmente franco. Os envolvidos não negaram as acusações, mas deram início a uma onda de questionamentos sobre a origem das informações, à revelia da proteção constitucional ao sigilo da fonte. 


Esta estratégia se assemelha à utilizada no caso Wikileaks, em que o vazamento de documentos do governo estadunidense sobre a guerra do Iraque e campos de tortura enfrentou o combate ferrenho dos acusados. O governo angariou apoio da mídia corporativa, que tentava descredibilizar a figura de Julian Assange, CEO da plataforma que abriga os arquivos. Foi o apoio da comunidade hacker e a mobilização da população do Oriente Médio, impactada pela Internet e pela atuação de mídias livres, que manteve parte do debate público voltado para o abuso do biopoder pelos Estados Unidos. (Antoun, Malini, 2013).


O ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis, a estilista Vivienne Westwood, o editor-chefe do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsonn, o pai de Assange, John Shipton, e o cantor Roger Waters participam do protesto contra a extradição de Julian Assange — Foto: Peter Nicholls/Reuters



O Intercept Brasil se apresenta como uma agência de notícias dedicada à responsabilização dos poderosos. Suas atividades são financiadas pelo método Crowdfunding, em que qualquer cidadão interessado em apoiar as investigações pode contribuir com doações. Em entrevista ao Podcast Desce a Letra Show, gravada em junho de 2024, o jornalista Leandro Demori, que esteve à frente da Vaza Jato, contou que no período anterior ao lançamento das reportagens, o Intercept arrecadava cerca de R$60.000,00 por mês. Poucos dias depois da primeira reportagem, alcançaram a marca dos R$360.000,00, em uma demonstração de que o público ansiava pela continuidade da investigação.


A interação entre  os doadores e os jornalistas do Intercept se dá na viabilização financeira e encorajamento do trabalho jornalístico. Ela reflete a entrada de redes de luta política no espaço informacional das redes digitais e a transformação da Internet em uma máquina de cooperação social (Antoun e Malini, 2013). Esta dinâmica coloca o site Intercept Brasil como um actante não-humano (Latour, 2005, apud Lemos, 2011) fundamental para a mudança de atitude de jornais tradicionais como a Folha de S. Paulo, o Estadão e a Veja diante da Operação. Nas palavras de Glenn Greenwald e Leandro Demori no texto “A quem interessa a narrativa dos ‘Hackers Criminosos’ na #vazajato?”, publicado em 17 de junho de 2019:


“Durante cinco anos, [...] a operação passou incólume, sofrendo poucas críticas enquanto abastecia a mídia com manchetes diárias. Teve pista livre para cometer ilegalidades em nome do combate a ilegalidades. Agora, a maior parte da imprensa está pondo em dúvida os procuradores e o superministro.”


Antes das acusações de parcialidade, a Operação Lava Jato, que teve início em 2014, provocou inúmeras manifestações políticas em todo o Brasil. Neste contexto, surgiu o movimento Vem Pra Rua, fundado pelos empresários do setor financeiro Rogerio Chequer e Colin Butterfield. Em seu site pessoal, Chequer afirma que a primeira manifestação do Vem Pra Rua contou com a presença de quatro pessoas, em 04 de outubro de 2014. Em 13 de março de 2016, convocou a maior manifestação política de todo o país, pedindo o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff (PT), o combate à corrupção e apoiando a Lava Jato. Este episódio ganhou força após a solicitação da prisão preventiva de Lula pelo Ministério público de São Paulo, na semana anterior.


Manifestação em 13 de março de 2016, no Farol da Barra (Foto: Henrique Mendes/G1 BA)



A mobilização de 3,6 milhões de pessoas, de acordo com a Polícia Militar, e 6,9 milhões de pessoas, segundo os organizadores, em 300 municípios do país, só foi possível devido ao uso da Internet e redes sociais. Esta associação entre humanos e não-humanos faz de ambos agentes produtores de diferenças na organização social, em mais um caso em  que “Facebook, Twitter, celulares… agiram como mediadores e foram tradutores de ações de/para outros actantes que ganharam várias dimensões (as ruas, as emissões televisivas, os artigos etc.)”  (Latour, 2005, apud Lemos, 2011). 


A suspeição de Sergio Moro em ações contra Lula foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal em 23 de junho de 2021. Cinco anos depois do lançamento da Vaza Jato, a Corregedoria Nacional de Justiça determinou o envio ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) de um relatório que concluiu haver conluio entre procuradores e juízes que atuaram na Lava Jato para desviar R$ 2,5 bilhões de recursos públicos. Assim, ao expor as irregularidades da operação, a série de reportagens cumpriu seu papel ao colocar a vida de tantas figuras em desvio da normalidade - sendo esta a sustentação das precariedades que reproduzem o mundo do capital financeiro. (Antoun e Malini, 2013)


 
 
 

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