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Do Facebook ao Congresso: a ascensão de Nikolas Ferreira

  • Foto do escritor: Luanda Costa
    Luanda Costa
  • 17 de nov. de 2024
  • 3 min de leitura

Após uma prova de sociologia em 2013, um jovem de 17 anos postou um texto no Facebook. Uma das questões a que ele se referia abordava a transgeneridade da cartunista Laerte e de um modelo de Minas Gerais. Com palavras críticas e reacionárias em relação a essas figuras, este menino potencializou uma tendência de comportamento extremista de uma parcela da população já polarizada. Em perfil na Revista Piauí, o jornalista João Batista Jr. desenhou a trajetória do deputado mais votado de 2022, com quase 1,5 milhão de votos: Nikolas Ferreira. 


Com um relato que abordava “apologia ao ativismo gay” e citava que o MEC era o “Ministério da Educação Comunista”, Nikolas tornou-se popular entre grandes perfis cristãos e políticos de direita. Seu conteúdo foi curtido, comentado, direcionado, redirecionado e impulsionado por diversas páginas que se identificavam com seu depoimento, apesar do desconhecimento total de quem ele era. Através de um processo de constituição de perfil (profiling) dos usuários do Facebook, aliado a dispositivos de coleta e formatação de dados (datamining) da plataforma (Lemos, 2023), uma corrente de pensamento politicamente polarizada foi alimentada.


Redes e Representação


A magnitude da sua representação enquanto fenômeno de votos e fenômeno digital é sintoma da governabilidade algorítmica em uma cultura de capitalismo de dados. Aquele jovem que até aquele momento era anônimo, atingiu milhares de pessoas com a suas palavras. Este "sujeito informacional", que engendra um modelo de comportamento da juventude conservadora brasileira no século XXI, adiciona mais uma camada nas dinâmicas de poder, produzindo um conteúdo que, ao ser cada vez mais acessado, molda e restringe as ideações de governamentalidade, sem necessariamente a aplicação de restrições explícitas no meio digital. Esse processo de “formatar” a informação, tornando-a acessível e atraente ao público jovem, é um exemplo direto de como as plataformas podem instituir formas de exercer poder sobre os indivíduos, influenciando decisões e percepções. Para os jovens que o seguem, essa curadoria personalizada facilita a criação de uma bolha informacional, em que suas visões de mundo podem ser continuamente alimentadas e reforçadas sem um esforço consciente. O controle invisível sobre o que é ignorado faz com que as redes sociais sejam uma poderosa ferramenta de engajamento político, já que o algoritmo “governa” o tipo de conteúdo e a frequência com que os usuários se deparam com Nikolas e suas ideias conservadoras.


O Facebook, neste caso, atuou como um palco de infopoder. Ao passo que a plataforma leva à (re)organização das práticas culturais e políticas em torno dela, essas mesmas práticas moldam simultaneamente suas dimensões institucionais lac(Poell, Nieborg, Van Dijck, 2020), pois o debate público é mediado por algoritmos otimizados para o engajamento. Após começar a cursar direito na PUC Minas, Nikolas compareceu a um evento da universidade com a presença do teólogo Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação. Ele pediu a palavra na cerimônia e chamou todos os presentes de hipócritas, adoradores de Che Guevara “que matou gays” e “bando de comunista safado”. O vídeo da cena viralizou na plataforma e chegou até o grupo Direita Minas, o qual Nikolas se tornou um entusiasta.


Assim, tem-se em vista que os ultraconservadores, aliados ao colonialismo de dados - que potencializa essas buscas extremistas - "costumam confrontar os excelentes valores democráticos com valores ainda mais excelsos", bem como proposto por Wilson Gomes, na coluna na Folha de S.Paulo "Democracia sempre, mas os nossos valores em primeiro lugar". A expropriação das informações dos usuários acontece mediante este agendamento político pois estabelece maior controle econômico à plataforma: o viral é lucrativo para ela e assim, o antidemocrático torna-se cada vez mais popular.   


 
 
 

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