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Dinâmica das Redes e a Integridade Democrática

  • Rede de Poder
  • 5 de nov. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 6 de fev. de 2025

No texto “A Filosofia da Rede”, o escritor e filósofo francês Pierre Musso destrincha os significados associados à construção do conceito de rede e sua influência na sociedade, ao longo das décadas, partindo do século XVI. De acordo com Musso, alinhado ao pensamento Foucaultiano de que “o saber cede ao ver”, a ambivalência da rede, em sua essência, está em controlar ou fazer circular. Para sustentar sua tese, o escritor traz a análise de Claude-Henri de Saint-Simon, também filósofo francês, a respeito da lógica organística da rede e sua dualidade: “A rede é concebida, ao mesmo tempo, como uma técnica que faz vínculo e como um operador político-moral que faz sentido. A rede age sobre duas vertentes: uma, técnico-financeira; a outra, político-simbólica”. Isto é, a rede pode ser entendida “não apenas como um conceito, mas um operador para a ação”.

Nesse sentido, Musso aborda também a ideia de Michel Chevalier, político e economista francês, de que a rede produz, por ela mesma, mudanças sociais. Se encararmos as redes como agentes em nosso próprio meio social, podemos dizer, então, que a Internet, por exemplo, enquanto um conjunto de redes de comunicação, é capaz de ditar tendências de comportamento.

Partiremos desse exemplo para questionar uma das noções de rede apontadas pelo político. Michel Chevalier afirma que: “A rede técnica permite a comunicação, a comunhão e a democratização pela circulação igualitária dos homens. A redução geográfica das distâncias físicas, ou mesmo a intercambialidade dos lugares, graças às vias de comunicação, significa redução das distâncias sociais, isto é, democracia”. Nessa conjuntura, a Internet é, de fato, uma rede técnica que possibilita a comunicação global, encurta distâncias geográficas e promove o exercício da democracia. Entretanto, ela pode também funcionar como um espaço para a disseminação de  tendências antidemocráticas e intolerantes, e consequentemente, contrárias à ideia de rede da religião saint-simoniana, no que tange à associação e comunhão universal.

Além disso, tratando-se de um aparelho em que aqueles que detém maior poder financeiro são capazes de dominar o mecanismo de alcance e impulsão de seus conteúdos publicados, não podemos dizer que a Internet funciona de forma igualitária. Nesse aspecto, vamos analisar o caso do Brasil Paralelo.

“Brasil Paralelo” é o nome de uma empresa audiovisual brasileira fundada em 2016, que produz conteúdos com viés bolsonarista, conservador e de extrema-direita. Apesar de, nominalmente, não autoproclamar nenhuma vertente política específica, o sócio-fundador Henrique Viana afirmou em entrevista que a inspiração para a produtora adotar o caráter militante conservador foi o professor Olavo de Carvalho, que foi um teórico conspiracionista e protagonista da expansão da ultradireita no Brasil. Segundo Jorge Chaloub, professor de ciência política da UFRJ, Carvalho mobilizou muitos seguidores por meio de chamados à violência, construção de inimigos públicos e negacionismo, o aproximando de uma linguagem política fascista.


DOMÍNIO DAS REDES


Para entender como a produtora utiliza a Internet para influenciar as pessoas com seus ideais extremistas, negacionistas e antidemocráticos, é preciso compreender a estratégia que a empresa utiliza. Resumidamente, o Brasil Paralelo se aproveita dos seus vastos recursos financeiros para investir em anúncios publicitários e compras de domínios da plataforma Google, posicionando-se entre os primeiros links disponíveis para pesquisas relacionadas à esfera política e, assim, impulsionando seus conteúdos para cada vez mais pessoas.

Dados divulgados pela Meta apontam que, entre o período de agosto de 2020 a janeiro de 2023, a produtora gastou pouco mais de 16,3 milhões de reais em anúncios relacionados a “temas sociais, eleições ou política”, assumindo o posto de maior anunciante do país, à frente de plataformas como Whatsapp e Facebook.

Em suma, é importante ressaltar que na tática de propaganda e marketing utilizada pela empresa não há nenhuma irregularidade. O ponto principal é demonstrar como uma rede de comunicação, nesse caso a Internet, opera de forma desigual. Ao mesmo tempo que pode ser uma ferramenta para a melhoria da comunicação e do exercício da democracia, também pode funcionar para o crescimento de tendências antidemocráticas e negacionistas que influenciam episódios de intolerância e barbárie no corpo social de uma nação, como foi o caso do 8 de janeiro.

O Brasil Paralelo já sofreu desmonetização e veto de conteúdo produzido, ao ser condenado pelo TSE por violação da legislação eleitoral. Se tratava de um vídeo que seria publicado 2 semanas antes das eleições presidenciais de 2022, com o título “Quem mandou matar Bolsonaro?”. À época, Benedito Gonçalves, corregedor eleitoral do TSE afirmou: “Chega-se ao ponto de que milhões de pessoas que, ainda que de boa-fé, acreditam estar acessando uma diversidade de fontes de informação, se encontram absolutamente enredadas por notícias fabricadas, sempre prontas a disparar um sentimento de urgência contra riscos iminentes e irreversíveis”.

 
 
 

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